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Interlúdio: Galo de Briga — Baco Exu do Blues: "Eu sempre fui tratado como um galo de briga / Eu tive que estudar a arte da guerra / Eu conheço todos os guerreiros [...] E agora que esses dias passaram, estou vazio / Eu não sou ninguém / Eu tô trabalhando na arte da humildade / Você acredita em mim? / Interessante, cê sabe como nasceram os gladiadores?"
A arte, em suas múltiplas manifestações, atua frequentemente como um espelho cristalino das dinâmicas psíquicas mais complexas da experiência humana. O interlúdio "Galo de Briga", presente na obra do artista Baco Exu do Blues, oferece um ponto de partida clinicamente riquíssimo para discutirmos a estruturação da personalidade em ambientes hostis e os desdobramentos emocionais que ocorrem quando a ameaça cessa.
O eu-lírico descreve a trajetória de um indivíduo que, forjado na adversidade e na expectativa do confronto constante, construiu sua identidade em torno da agressividade, da invulnerabilidade e do preparo bélico. Se você já sentiu que precisa estar armado o tempo todo para sobreviver às suas relações ou ao seu ambiente, este texto é para você.
Na prática clínica, é muito comum recebermos pacientes que operam exatamente sob essa lógica. São indivíduos que vivenciaram histórias de vida marcadas por negligência, abusos, ambientes familiares disfuncionais ou opressões sistêmicas severas. Para essas pessoas, o estado de alerta não é uma escolha, mas uma imposição neurobiológica.
O sistema nervoso autônomo simpático permanece hiperativado, banhando o cérebro em cortisol e adrenalina, configurando o que chamamos de hipervigilância. Como aponta o psiquiatra Bessel van der Kolk (2014) em seus estudos sobre o trauma, o corpo registra a ameaça e se adapta para sobreviver a ela, alterando a percepção de segurança do indivíduo.
Quando o sujeito é "tratado como um galo de briga", ele aprende rapidamente que a passividade equivale à aniquilação. A agressividade, portanto, deixa de ser um traço de caráter patológico em sua origem e passa a ser compreendida como um mecanismo de enfrentamento (coping) altamente adaptativo, focado estritamente na preservação da integridade física e psíquica.
Um aspecto fascinante da narrativa da música é a racionalização e a intelectualização da defesa: "Eu tive que estudar a arte da guerra / Eu conheço todos os guerreiros / De Carlos Magno até Aquiles...".
Na psicanálise, a intelectualização é amplamente reconhecida como um mecanismo de defesa do ego (Freud, A., 1936). O indivíduo busca dominar a ansiedade e o medo não através do processamento emocional das suas dores, mas pelo acúmulo de conhecimento e controle cognitivo sobre a fonte da ameaça. Estudar a "arte da guerra" é uma tentativa desesperada de prever o imprevisível.
O sujeito torna-se um especialista em antecipar cenários catastróficos, armando-se com argumentos, estratégias e defesas verbais ou comportamentais. O intelecto atua como uma armadura impenetrável; a erudição bélica é o escudo brilhante que esconde, no fundo, uma criança assustada ou um adulto profundamente traumatizado.
No entanto, o cerne do sofrimento psicológico apresentado na obra — e frequentemente verbalizado nos consultórios — ocorre na transição: "E agora que esses dias passaram, estou vazio / Eu não sou ninguém".
O que acontece com um soldado quando a guerra acaba? O que resta do gladiador quando a arena é demolida? A resposta clínica é, quase invariavelmente, uma profunda crise e um sentimento paralisante de vazio existencial, um conceito amplamente explorado por Viktor Frankl (1946) ao descrever a perda de sentido e direção.
Quando a estrutura do ego foi inteiramente cimentada na resistência, na antecipação do ataque e na postura do "aniquilador", a paz soa como um vácuo assustador. O sujeito descobre que toda a sua energia vital foi direcionada para não morrer, restando muito pouco repertório para simplesmente viver.
A agressividade, que antes organizava o psiquismo e dava sentido aos dias ("eu luto, logo existo"), perde sua função utilitária. O indivíduo se vê diante de um luto simbólico: a morte da identidade do guerreiro. Esse vazio não é meramente a ausência de emoção, mas a desorientação de quem não sabe habitar a calmaria sem desconfiar dela. Para quem sobreviveu à guerra, a paz é frequentemente percebida como uma emboscada.
A provocação final do texto — "Interessante, cê sabe como nasceram os gladiadores?" — é um convite doloroso à reflexão sobre a origem dessa agressividade. Gladiadores não nasciam querendo matar; eles eram escravizados, lançados à arena e forçados a lutar pelo entretenimento ou poder de terceiros, até que a violência se tornasse sua única linguagem e forma de valor.
Muitos de nós somos gladiadores modernos, condicionados a lutar por afeto, por espaço, por sobrevivência financeira ou por validação. O comportamento agressivo, muitas vezes lido socialmente apenas como desvio ou toxicidade, frequentemente oculta uma história onde o sujeito foi lançado às feras sem direito de escolha.
O trabalho terapêutico com pessoas que apresentam esse perfil exige extrema cautela e um ambiente de segurança incondicional. O consultório não pode, sob nenhuma hipótese, replicar a arena. O objetivo da psicoterapia nesse contexto é apoiar o paciente naquilo que o artista genial e dolorosamente define como "a arte da humildade".
Essa humildade não deve ser confundida com submissão ou fraqueza. Trata-se da coragem de aceitar a própria vulnerabilidade, um passo essencial para conexões genuínas (Brown, 2012). É o processo de depor as armas, reconhecer que a ameaça iminente ficou no passado e permitir-se, finalmente, sentir a dor que a raiva encobriu durante tantos anos.
A verdadeira maestria sobre si mesmo não reside na capacidade de aniquilar o outro ou de prever todos os ataques, mas na força de desconstruir as próprias armaduras quando elas se tornam prisões. O vazio relatado não é o fim, mas um terreno limpo e fértil. É o espaço necessário para a construção de um self autêntico, baseado em desejos, afetos e vida real, e não apenas em reflexos de defesa.
Ajudar você a fazer a transição de "galo de briga" para um ser humano pleno, capaz de habitar a própria vulnerabilidade sem perder a essência, é a missão da psicoterapia.
Paulo H. M. Gonçalves
Psicólogo — CRP: 09/22649
Atendimentos presenciais no Espaço Insight em Anápolis (GO) e Psicoterapia Online.
BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito (Daring Greatly). Rio de Janeiro: Sextante, 2012. (Referência sobre a força da vulnerabilidade e a desconstrução de armaduras emocionais).
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. São Leopoldo: Sinodal, 1946 (Edições recentes). (Referência sobre o vazio existencial e a reestruturação do sentido de vida).
FREUD, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa. Porto Alegre: Artmed, 1936 (Edições recentes). (Referência estrutural sobre a intelectualização como proteção do ego).
VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas: Cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Sextante, 2014. (Referência sobre a neurobiologia do trauma, sistema simpático e hipervigilância adaptativa).